Nos últimos dias, vivemos um turbilhão de emoções com um participante do BBB sendo expulso por agressão à namorada e uma figurinista botando a boca no mundo e acusando José Mayer de assédio sexual. Atrizes se pronunciaram, demonstraram apoio e a frase “Mexeu com uma, mexeu com todas! #chegadeassédio” bombou nas redes sociais. Enquanto o brother debochava da situação e o ator garanhão responsabilizava seu “eu-lírico” colocando a culpa no personagem da novela, outra hashtag aparecia por aí: #nãosejaumporquê. A série 13 Reasons Why, baseada no livro 13 Porquês, virou febre e teve gente maratonando todos os episódios em menos de 24 horas, logo depois de ela ficar disponível na Netflix. Mas será que essa é a melhor forma para falar de suicídio e depressão na adolescência?

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Para quem não sabe nada da série, eu sugiro assistir tudo primeiro e depois voltar aqui. Porque simplesmente não dá para falar do que precisamos falar sem soltar alguns spoilers. Em resumo, a série é narrada por Hannah Baker, uma menina bonita que em determinado ponto começa a ser tratada como a vadia da turma. Hannah se suicida deixando 13 fitas contando sua história e dizendo porque resolveu tirar a própria vida. E é aí que as coisas começam a ficar estranhas.

É impossível assistir aos dramas dos personagens e não se identificar – seja com agressor, seja com a vítima. Todos ali são um universo inteiro de inseguranças, angústias, e dores bizarras. E cada um lida como pode com as situações que vão sendo apresentadas ao longo do caminho. Tendemos a simpatizar com Hannah porque ela é narradora, e durante todo o tempo só conhecemos pessoas e eventos de acordo com a sua perspectiva. Enquanto os outros personagens se perguntam se tudo aquilo que está ali é verdade, só resta ao espectador um embrulho no estômago. Mas calma, que piora. 

Hannah se matou, e por mais que você considere os motivos “justos”, ela deixa um rastro de destruição para trás. Se adultos tem dificuldade de lidar com a culpa, imagine adolescentes passando pelos seus próprios dramas. Aqui vale um alerta: não caia na armadilha maniqueísta de achar que todos são os vilões e só Hannah é mocinha. Deixando de lado crimes graves como o estupro (e essa cena é bem difícil de assistir), preciso concordar com o Criolo: “as pessoas não são más, elas só estão perdidas”. O problema é que nem sempre há tempo.  E o suicídio está longe de ser a única saída, como a série deixa implícito.

A sensação de assistir alguém sofrendo bullying é terrível, mas a inércia dos pais, o simplesmente “não-saber”, consegue ser ainda mais angustiante. Hoje, aos 30, eu me pego entre aquele meio do caminho da juventude e a idade adulta ainda sem filhos. Eu me lembro de como era ser adolescente, lembro do caos  e me pego pensando no que eu faria caso meus filhos estivessem enfrentando um inferno particular. Eu veria? Eu perceberia? Eu tentaria ajudar? Ou eu simplesmente não teria ideia?

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Falar que “na minha época todo mundo se zoava e ninguém morria por isso” é um dos argumentos mais canalhas que eu poderia usar neste texto. Eu passei pelo bullying e, sim, tive que colar alguns pedacinhos ao longo do caminho. E não, eu não morri por isso. Mas uma coisa facilitou muito a minha passagem pelo Ensino Médio: a internet era um bebê e as redes sociais mal pensavam em existir. Como é ser adolescente em 2017? Graças a Deus, eu não faço ideia. Mas sei que nessa dinâmica bizarra – e várias vezes macabra – agressores e vítimas se confundem. E no final das contas, a ajuda deve ser generalizada e contemplar ambos os lados.

Se você deve ou não assistir a 13 Reasons Why? É uma escolha sua. Mas vá preparado para lidar com assuntos como estupro, suicídio, abandono parental e outras questões espinhosas. Uma coisa é certa: não se fazem mais séries adolescentes como antigamente. E não sei se a gente tem que agradecer por isso.

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