tara-westoverNós, brasileiros, temos uma noção clara do que é privilégio: não se perguntar de onde vem a próxima refeição, não estar afundado em dívidas, dormir sem o som de tiros, ir para a escola bem alimentado, não se preocupar com as chuvas fortes. Com o nosso cenário, é até difícil pensar que, em alguns lugares do mundo, simplesmente há quem não queira uma educação formal para os filhos. Talvez por isso “A Menina da Montanha” tenha me impactado tanto.

Esta não é uma história sobre mormonismo. Mas é.

Pra começar, já aviso que você vai precisar vencer a barreira do título. Educated, no original, traduz muito melhor a ideia-base da narrativa de Tara Westover. Filha de uma família de sobrevivencialistas, Tara foi criada no estado de Idaho, nos Estados Unidos, dentro de uma das maiores comunidades mórmons do país. Apesar de deixar claro desde a primeira página que o livro não se trata de uma história sobre mormonismo, a religião permeia a vida da menina, que só foi pisar em uma sala de aula pela primeira vez aos 17 anos.

Como sobrevivencialistas, seus pais estavam constantemente preocupados com o fim do mundo e operavam sob uma lógica diferente. Isso incluía se opor ao governo, ao sistema de saúde e a educação fornecida pelo Estado. E isso, além de manter as crianças fora da escola, também significa mantê-las longe de hospitais e médicos. Em um ferro-velho – a principal forma de sustento da família – é de se imaginar que as crianças sofriam ferimentos constantes. E graves. Neste contexto, queimaduras de terceiro grau, traumatismos cranianos, e cortes profundos eram tratados da mesma forma: com ervas manipuladas pela mãe de Tara.

Para que uma educação formal?

Além dos abusos físicos, os emocionais também eram constantes. Tara frequentemente era agredida pelo irmão mais velho e, ao decidir denunciar, foi desacreditada pela própria mãe. Dentro desta realidade, é muito espantoso que alguém que só pisou em uma sala de aula pela primeira aos 17 anos – sem saber o significado da palavra “holocausto” – tenha chegado a completar o doutorado em Cambridge apenas 10 anos depois. Mas a verdade é que nada na história de Tara é comum. E é isso que torna “A Menina da Montanha” tão especial.

O gap de aprendizado não está relacionado apenas às questões básicas de história, geografia, matemática. Mas representa um abismo na percepção de mundo de uma personalidade que está se formando. Para usarmos um exemplo simples, você se lembra do seu primeiro dia de aula na faculdade? Foi tenso, difícil? Você estava nervoso, apreensivo, ansioso? Provavelmente, como todos nós, você viveu todas estas emoções sem perceber que o simples fato de ter frequentado uma escola já te tornava apto a pertencer àquele grupo de universitários. Consegue imaginar sua vida sem esta experiência?

Por que ler A Menina da Montanha?

E porque falar de Tara aqui? Porque a história desta mulher é um tapa na cara, e a lembrança constante que nós – infinitamente mais privilegiados que ela – temos a obrigação de transformar nosso conhecimento em ação. Aliás, ações, no plural. Ações que permitam que outras mulheres tenham acesso à educação, que nos possibilitem ganhar dinheiro, fazer a economia girar, transformar vidas ao nosso redor. Em um momento em que o Brasil vive uma crise gravíssima na educação, ler “A Menina da Montanha” é quase um manifesto. Mulheres como estas, sim, devem servir de exemplo.

Então, que fique aqui esta dica: leia, inspire-se, passe adiante. Histórias como estas merecem ser lidas, discutidas e relembradas de tempos em tempos.

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